002: 【A Ambição da NBA】
Foi aos oito anos que Fan Xi conheceu Allen Ezell Iverson.
Reconheceu quase de imediato aquele garoto de tranças rasteiras, apanhando-o no momento em tendia a furtar um rou jia mo na cozinha dos fundos da casa do tio Fanle. Não era incomum terem de lidar com esse tipo de contratempo, afinal, o estabelecimento ficava a pouca distância do bairro negro.
Ao surpreender Iverson, Fan Xi não chamou a polícia; escolheu, ao contrário, tornar-se seu amigo e garantiu-lhe que poderia voltar sempre que quisesse para saborear um hambúrguer chinês, desde que o levasse para jogar basquete consigo.
Fan Xi não sabia explicar o motivo daquela simpatia súbita e inexplicável por Iverson, nem por que, ao vê-lo pela primeira vez, instintivamente pronunciara seu nome. Afinal, Iverson não passava então de um garotinho anônimo.
Talvez fossem sequelas daquele sonho de sete dias e sete noites que tantas marcas lhe deixara; sentia, por vezes, que os acontecimentos vistos na televisão eram ecos de algo que já vivera, e que certas figuras das telas lhe transmitiam informações insólitas e suplementares.
Mas não ousava dividir isso com o tio Fanle — este só acreditava no poder do “força bruta é que faz o milagre”.
Com o tempo, a amizade entre Fan Xi e Iverson se consolidou e, conforme Iverson despontava como estrela do esporte, tornando-se o mais brilhante astro da comunidade negra de Hampton, os negócios da família de Fan Xi floresciam sem obstáculos no bairro negro. Os amigos de Iverson tornaram-se irmãos de Fan Xi; nunca mais houve quem viesse importunar o seu comércio.
Assim, a renda do tio Fanle cresceu vertiginosamente. Aos trinta e dois anos, já arquitetava encontrar uma viúva chinesa em Chinatown para desposar, ainda que sua coleção de filmes preferidos fosse composta apenas de loiras exuberantes do outro lado do mundo.
Eis aí a prova do pragmatismo de tio Fanle.
Quando regressou a casa, encontrou o tio exercitando o punho de Choy Li Fut no quintal. Alto, com um metro e noventa e um de estatura e cento e dez quilos, tio Fanle movia-se com a agilidade de um tigre, soltando de tempos em tempos um brado furioso — impondo respeito.
— Jack, que achas do meu boxe? — perguntou ao perceber o sobrinho em casa, voltando-lhe o rosto suado.
Fan Xi levantou os dois polegares, apressado:
— Excelente! Magnífico! Extraordinário!
Com tio Fanle, a lisonja era sempre a escolha mais segura. Embora Fan Xi já se aproximasse do tio em altura, oito anos de “força bruta é que faz o milagre” haviam-lhe condicionado os reflexos.
Guardou o dinheiro no caixa, lavou o rosto no quintal e subiu as escadas.
Lá embaixo, tio Fanle prosseguia, ufano, a expor seus planos de negócio:
— Jack, daqui a alguns anos, quando terminares o curso de negócios, poderemos abrir uma rede de lojas, como o McDonald’s ou o KFC. Levar nosso hambúrguer chinês para toda a América! Nossa receita autêntica, transmitida há milênios, é muito melhor que esses fast foods estrangeiros…
Fan Xi sorriu, resignado. O tio era excelente em muitos aspectos, mas gostava de sonhar alto — queria enriquecer vendendo rou jia mo, dar glória à família e regressar à terra natal em triunfo.
Mas, no fundo, o que havia de diferente entre nossos hambúrgueres e os americanos? Não passavam de pão recheado com ketchup e folhas de alface… O sabor, inferior ao do McDonald’s, era voltado para alimentar o povo do gueto: saciar a fome, fornecer alguma proteína, e só. Não fosse pela amizade com Iverson, que lhe abrira caminho nos bairros negros, o negócio mal daria para viver — há dois anos, o tio teria de procurar emprego num restaurante chinês em Chinatown.
— A propósito, daqui a uns dias vai haver jogo entre tua escola e o colégio de Hampton. Vais começar como titular? Marquei encontro com a tia Wang da casa de hot pot em Chinatown, aquela que ficou viúva há dois anos. Tens de te sair bem. A filha mais nova dela, apesar de ser sete ou oito anos mais velha que tu, é uma beleza. Se nós dois conquistarmos mãe e filha, será uma dupla felicidade, uma união poderosa.
— O restaurante de hot pot dela rende muito mais que nosso hambúrguer chinês. Se conseguirmos vender rou jia mo lá…
A voz do tio ainda ecoava escada acima.
Fan Xi respondeu:
— Não se preocupe. Vai dar tudo certo.
O tio precisava mesmo de uma esposa, pensava Fan Xi. Conhecia a tia Wang de Chinatown — apesar dos quarenta e cinco anos, conseguia preservar certo charme, desde que se arrumasse. E, segundo as palavras do tio: “Mulher mais velha é tesouro, só doze anos mais que eu, uma coincidência de picos!”
Quanto à filha mais nova da tia Wang, Fan Xi não sentia interesse. Não queria tesouros em forma de nora. Era bonita, sim, mas muito magra, de seios pequenos. Fan Xi, acostumado à convivência com os negros, começava a absorver seus gostos: preferia curvas generosas, corpos de onde se pudesse espremer água… mas, definitivamente, não negras.
No quarto, Fan Xi ligou a televisão e sintonizou o canal CBS, para assistir à NBA.
Após o marasmo dos anos 70, a NBA florescera nos 80. O duelo entre Magic Johnson e Larry Bird, o embate entre preto e branco, atraíra multidões às quadras: o basquete tornava-se a febre nacional. No ano anterior, o Dream Team esmagara todos os adversários nas Olimpíadas de Barcelona, exibindo ao mundo a supremacia do basquete americano. Sob a direção comercial precisa do judeu David Stern, a NBA ultrapassara, em valor de mercado, as demais quatro grandes ligas norte-americanas e expandira seu alcance global.
Michael Jordan, por sua vez, caminhava para tornar-se uma lenda imortal do esporte.
Fan Xi amava o basquete, mas não se deixava fascinar por Michael Jordan. Admirava ainda mais Iverson, seu amigo próximo.
Em Hampton, e mesmo em toda a Virgínia, todos sabiam que Iverson tinha um destino: a NBA.
A mãe de Iverson, Ann Iverson, já propagava esse sonho há dois anos. Sempre chamava o filho de volta do campo de futebol americano, seu verdadeiro amor, e pedia a Fan Xi que nunca tirasse os olhos dele, insistindo que ambos treinassem juntos na quadra de basquete.
Ann fora jogadora de basquete no colegial; pela televisão, vislumbrara as fortunas possíveis na NBA. Dois negros, ambos MJs, inspiravam as famílias afro-americanas humildes: um garoto do subúrbio podia, graças ao talento com a bola, tornar-se soberano da liga, criar sua própria marca esportiva, ditar tendências culturais e difundir seu espírito atlético ao mundo — conquistando riquezas incalculáveis e a admiração de fãs no planeta inteiro, tornando-se um dos mais poderosos do topo da pirâmide social.
Fan Xi também sonhara, um dia, em ser jogador da NBA. Parecia-lhe ter uma obsessão insana: precisava enfrentar os melhores do mundo.
Mas mantinha os pés no chão — o abismo que o separava da NBA era demasiado grande.
Era conhecido em Hampton, é certo; crescera duelando, sem regras, nas ruas, o que lhe dera técnica e controle de bola superiores, até mesmo mais refinados que os de Iverson. No colégio Bethel, eram chamados de “os gémeos da retaguarda” — a melhor dupla de guards do basquete escolar da Virgínia.
Porém, em termos físicos, Fan Xi ficava muito aquém de Iverson. Este tinha explosão, velocidade, agilidade — em tudo era superior. Basta um exemplo simples: Iverson, com menos de quatorze anos e apenas um metro e setenta, já cravava a bola na cesta. Fan Xi, quase aos dezesseis, com um metro e oitenta e cinco, só conseguia enterrar batendo a bola no chão e saltando para empurrá-la lá dentro… Não era falta de tamanho de mão, mas segurá-la já lhe tirava altura no salto.
Fan Xi sabia: seu limite seria talvez ser uma estrela nos campeonatos colegiais. Sonhar com bolsa de estudos por mérito esportivo era demasiado.
Contudo…
Ao deitar-se, Fan Xi franziu as sobrancelhas e concentrou-se no vazio acima de si. Diante de seus olhos, uma tela virtual, invisível para todos os outros, começou a se formar… Sistema carregando… 99%.
Talvez esse sistema pudesse, afinal, mudar alguma coisa.
…