Capítulo Um: Uma Caçada Estonteante
O homem nunca deixa de caminhar nas trevas; somente aquele que nutre a luz no Hudson encontrará a rota de saída.
Capítulo Um – A Caçada Estonteante
A solidão do deserto é cortada por uma fumaça solitária; o sol poente é de um vermelho sanguíneo. Enormes abutres carniceiros descrevem círculos no céu rubro, emitindo lamentos abafados. O vento ocidental uiva, lúgubre como um lamento de fantasmas, fustigando grão a grão de areia dourada, que desce das dunas imensas. Um lagarto amarelo do deserto, de olhos protuberantes e cor castanha, observa ao longe com olhar vigilante; repentinamente, como se notasse a presença de um predador, dispara em fuga, sumindo na tempestade de areia.
"Fuuu! Fuuu!" — Um camelo maciço da região ocidental resfolega, as patas afundando na areia, avançando fatigado sob os últimos raios moribundos do crepúsculo.
— Hoje já é o quinquagésimo primeiro dia, não? — disse um homem alto, de rosto coberto por uma barba cerrada, vestido em manto negro, cabeça envolta por um lenço escuro e uma cimitarra presa à cintura. Conduzia o camelo com uma das mãos, e na outra segurava um odre de vinho, balançando-se ao ritmo trôpego do animal.
— Sim, Lennard. Cinquenta e um dias. E até agora vimos apenas a sombra do Leão Dourado, sem sequer tocar um fio de sua juba — respondeu-lhe o companheiro de face pálida, também em manto e lenço negros, segurando um tridente de ferro, montado em pivotante camelo branco logo atrás.
— Bah! Se fosse assim tão fácil de capturar, ainda poderia ser chamado de soberano do Oeste? Não esqueça que, numa só investida, matou mais de uma dezena de nossos soldados na fronteira! Sem um exército de cem, ninguém sairia incólume desse deserto.
— É verdade! Desta vez mobilizamos mil e duzentos homens dos dois batalhões de ferro, divididos em seis alas, varrendo o deserto em busca da besta, e mesmo assim ela escapou-nos diante dos olhos. É astuta e feroz como nenhuma outra!
Lennard resmungou: — E esses camelos, que animais covardes! Basta sentirem o cheiro do Leão Dourado para que suas pernas fraquejem. Como persegui-lo assim?
— Pois é! Esse leão é realmente formidável. Se não tivesse visto com meus próprios olhos, pensaria tratar-se de mera lenda.
— Desta vez, nosso rei não poupou esforços: construiu uma paliçada de madeira que se estende por dezenas de léguas, e com a manobra de cerco dos batalhões, finalmente conseguimos encurralá-lo. Creio que esta noite tudo se decidirá!
— É mesmo? — admirou-se o homem de rosto pálido.
— Sem dúvida! Toto, há quantos dias não capturamos caça alguma?
— Dez dias! — respondeu Toto com firmeza.
— Se nós, em dez dias, não encontramos presas, o Leão Dourado também está há dez dias sem alimento.
— Claro! O príncipe Yego nos ordenou matar toda e qualquer caça que encontrássemos. Eis o motivo.
— Exatamente! Já escurece. Soldados, acelerem o passo! Temos de reunir-nos ao príncipe Yego antes que o incenso se apague! Avante! — bradou Lennard, voz firme.
Duzentos cavaleiros atrás dele estalaram os chicotes, produzindo estalidos secos no ar. Os camelos ergueram o pescoço, galopando em desatino, levantando redemoinhos de poeira e assustando a vegetação espinhosa, de onde um lagarto fugiu, observando-os desaparecerem na noite. Os abutres piaram, tristes, e alçaram voo rumo à escura falésia no fim do deserto.
Na estepe, milhares de tendas de lona branca tremulavam sob o vento ocidental. O acampamento era cercado por uma paliçada de madeira de centenas de léguas, cada estaca de mais de dois metros de comprimento e vinte centímetros de espessura, cravejada de-"ferros afiados de dezenas de centímetros. No centro do acampamento, uma carroça de madeira maciça repousava, sobre ela acorrentada uma jaula de ferro negra, com três metros de an"-tura e quatro de comprimento e largura. Em torno da fogueira, um grupo de escravos maltrapilhos e trêmulos de frio buscava algum repouso.
— Maldito frio! Não entendo para que capturar essa coisa! — resmungou um escravo, aquecendo-se ao fogo.
— Fale baixo, não quer ser punido se o senhor ouvir? Dizem que é para o príncipe do Reino do Santo Oriente presentear o rei deles em seu aniversário de cinquenta anos — sussurrou o escravo ao lado.
— Presentear? Que rei mais excêntrico!
— Comer? Se fosse para comer, não precisariam capturar o Leão Dourado vivo! — zombou um soldado que passava, ao ouvir a conversa, com desdém. — Não é para algo tão trivial quanto o banquete!
— Ah, é? — Os escravos mostraram-se curiosos. — E então, senhor soldado, para que serve?
— Bah, não entenderiam. — O soldado, sentando-se junto ao fogo, prosseguiu: — O rei do Santo Oriente se gaba de força e habilidade sem igual, e deseja enfrentar feras selvagens para provar sua supremacia. Dizem que ouviu falar do Leão Dourado, senhor do Oeste, e por isso enviou emissários a capturá-lo.
— Que tolice! — murmurou um dos escravos. — Quem em sã consciência desafia uma besta selvagem?
— Vocês não entendem! Se alguém derrotar o Leão Dourado, vocês ousariam provocá-lo?
Os escravos aquiesceram: — Naturalmente que não, fugiríamos o quanto pudéssemos.
— E realmente alguém consegue vencer o Leão Dourado? — indagou outro escravo.
— Bah! Se fosse possível, o príncipe teria todo esse trabalho? — o soldado levantou-se, afastando-se enquanto resmungava. — Por que perco tempo com esses escravos?
Os dois se entreolharam, perplexos. Se não podiam vencer, para que capturá-lo? As motivações dos senhores lhes pareciam cada vez mais incompreensíveis.
No interior da tenda central, o príncipe Yego aguardava, inquieto. Vestia um casaco de pele de arminho, calças de algodão cor de terra e botas altas de peles castanhas; no polegar direito, um grande anel de jade verde. À cintura, uma cimitarra adornada com turquesas, rubis, jade branca e ouro. Na cabeça, um lenço de seda branca cravejado de turquesas e rubis. Seu rosto magro e anguloso, cercado por espessa barba, exibia um nariz aquilino proeminente e olhos fundos, aguçados e brilhantes de determinação.
— Labraham, Lennard ainda não chegou?
— Não, senhor! — respondeu Labraham, robusto, rosto quadrado e barba densa, vestindo manto e lenço negros, impondo respeito.
— Hoje é o quinquagésimo primeiro dia, restam pouco mais de cinco meses para o cinquentenário do rei do Santo Oriente. Temos de capturar o leão hoje, não pode haver falhas!
— Fique tranquilo, príncipe. Com Lennard e Toto, nada sairá errado!
Yego assentiu, e sua mente se perdeu em visões das montanhas e florestas majestosas do Santo Oriente: pinheiros, ciprestes, jacarandás e carvalhos que cobriam o céu, esquilos, faisões, rolas e coelhos cinzentos percorrendo as matas; riachos cristalinos lavando raízes, flores e pedras cobertas de musgo, formando cachoeiras estrondosas e arco-íris ao sol; carpas, peixes-azuis e salamandras chorosas nadando livres. Parecia estar ali, sentindo o aroma das flores, da terra e das águas primaveris, ouvindo os cantos dos pássaros e o sussurrar dos insetos.
Aquela terra, pura e bela como uma virgem à espera, deveria pertencer ao povo do Verdadeiro Deus, não aos infiéis traiçoeiros e sem fé. O coração de Yego era um turbilhão de anseios, ódio, preocupação e confiança.
— Príncipe! O general Lennard retornou! — anunciou o batedor.
— Ótimo! — exclamou Yego, erguendo-se animado. — Encontraram alguma caça?
— Não! — respondeu o batedor, seguro.
— Excelente! — sorriu Yego. — Tudo se decidirá esta noite. O Leão Dourado, faminto há NB dias, estará desesperado. Ordene que se preparem! O Batalhão de Ferro deve alinhar-se e esperar ordens para partir comigo!
— Sim, senhor! — respondeu o batedor, partindo.
Labraham ergueu-se, abriu a tenda e aguardou ao lado. Yego vestiu manto e lenço negros e saiu apressado, seguido por Labraham. Lennard e Toto aguardavam do lado de fora.
— Saudações, príncipe!
— Dispenso as formalidades, corajosos. Hoje é tudo ou nada! Sigam-me.
— Sim, senhor!
Yego à frente, seguido pelos três, chegou à porta do acampamento; seiscentos soldados do Batalhão de Ferro, todos de negro, estavam alinhados.
Yego fitou-os severo:
— Guerreiros do Verdadeiro Deus, caçamos o Leão Dourado há cinquenta e um dias. Sei que todos estão exaustos, muitos mal regressaram do deserto, mas devemos partir novamente. O Verdadeiro Deus revelou-me: o destino do reino de Xiongru será decidido esta noite. Por séculos, servimos ao Deus Todo-Poderoso, orando e penitenciando dia após dia. Os pecados dos antepassados estão redimidos, e o Leão Dourado foi-nos concedido como sinal, atraindo a cobiça do rei do Santo Oriente. Aquela terra, a mais bela e fértil, repleta de fontes, florestas e caça infindas, é dominada por infiéis. Se entregarmos o Leão Dourado, uma tempestade de sangue se erguerá, e então aquela terra será nossa. Sigamos esta noite a orientação divina: capturemos o Leão Dourado!
— Capturar o Leão Dourado! Capturar o Leão Dourado! — rugiram os soldados, voz que estremeceu o ar.
— Avançar! — ordenou Yego, em tom cortante.
A noite era de lua nova e vento forte. Na fronteira da estepe com o deserto, léguas distante do acampamento, duas ovelhas brancas, feridas e sangrando, estavam cercadas num pequeno curral de madeira, balindo em agonia, seu lamento ecoando terrivelmente na quietude noturna.
Yego e seus homens, a favor do vento, ocultavam-se nas covas previamente escavadas, aguardando em silêncio absoluto.
De súbito, as ovelhas calaram-se. Um silêncio estranho e ameaçador pairou; até o vento pareceu cessar.
— Ele vem! — pensou Yego, sinalizando silêncio e imobilidade.
O som de respiração pesada, "fuuu! fuuu!", trouxe-se pelo vento, mas por algum tempo nada aconteceu. O Leão Dourado, cauteloso, rondava e observava, sem se precipitar sobre a presa. Yego ordenou paciência, ninguém deveria agir.
Passou-se mais um tempo, até que, de repente, um estrondo e um rugido de leão romperam o silêncio.
— Está feito! — exultou Yego, saltando do esconderijo. Ao redor do curral, armadilhas fundas haviam desabado: um leão majestoso rugia furioso dentro do fosso — era o Leão Dourado.
Os soldados cercaram o fosso, cada um com uma corda grossa.
— Laços! — ordenou Yego.
Os homens lançaram laços tentando capturar o animal, mas o leão, ágil, esquivava-se facilmente. Depois de longos minutos, todos estavam exaustos, e a fera, faminta e perseguida, começava a fraquejar.
— Deixem comigo! — Lennard lançou seu laço certeiro. O leão, sem tempo de evitar, foi preso pelo pescoço. Os soldados seguraram firme, e o nó especial impedia que o laço apertasse demais, para não sufocá-lo.
— Ao fosso! — bradou Yego.
Lennard e uma dezena de homens desceram, tentando amarrar as patas do leão. A fera, encurralada, enfureceu-se. Soldados caíram, e um deles, lento demais, foi abatido — a cabeça decepada numa mordida, sangue jorrando. Outro, atingido pela pata, teve metade do rosto arrancado, morrendo em poucos instantes.
Yego avançou, puxando a corda; Toto, Labraham e outros o ajudaram. Lennard, atento, jogou o laço e prendeu a pata traseira do leão, que, finalmente, tombou. Os demais soldados amarraram as outras patas. Em equipes de dez, dominaram-no completamente.
— Excelente! — Yego exultava. — Por mais astuto que seja, não escapará de minhas mãos!
Mandou baixar uma escada de madeira. Com grande esforço, os homens arrastaram o leão para fora do fosso, e então, revezando-se, conseguiram levá-lo até o acampamento, onde os soldados do Batalhão Sangrento também ajudaram a içá-lo até a jaula de ferro. Prenderam as cordas por dentro e por fora, e só então o arrastaram para dentro da jaula. Fecharam o portão, Yego suspirou aliviado, mandou cortar as cordas e atirou pedaços de carne de ovelha ao interior. O leão, faminto, devorou três ovelhas num instante.
Ao alvorecer, Yego, sem repousar, ordenou o retorno à capital. Os camelos recusavam-se a aproximar-se da jaula; cobriram-na com uma tenda para proteger do sol, e forçaram dezenas de escravos a empurrá-la, cercados pelos soldados do Batalhão Sangrento, chicoteando sem piedade os que hesitassem. O Batalhão de Ferro seguia atrás, cada homem com dois camelos. Seguiam assim, alternando marcha e montaria, por quinze dias, até alcançarem Xiongru, a capital.
A cidade, de muros altos de terra amarela, fervilhava de gente; casas de adobe alinhadas, bois, ovelhas, cães e camelos circulando pelas ruas, mercadores apregoando seus produtos, cortesãs exibindo-se nas portas dos bordéis, seduzindo e puxando os passantes. No centro, um castelo de pedra imponente, com SM pequenas janelas negras como olhos, vigiava o deserto. As cúpulas em forma de alho, douradas e prateadas, tornavam-no ainda mais majestoso. Duas fileiras de soldados de negro mantinham guarda a cada cinco passos ao longo da via ao castelo. Yego, orgulhoso, descobriu a jaula e cavalgou à frente, saudando os cidadãos com sorrisos e a mão direita sobre o peito.
O povo exultava, ansioso por ver o Leão Dourado. O animal rugia, indomável, golpeando as grades e assustando a multidão, que empalidecia e sentia o coração disparar.
À porta do castelo, uma jovem de véu branco cravejado de pérolas sob chapéu azul, vestida de túnica escarlate, esperava com seus criados. Um camelo ajoelhou-se suavemente; um criado ajoelhou-se ao lado.
A jovem correu ao encontro de Yego, tomou-lhe a mão e o ajudou a descer.
— Irmão, você esteve fora mais de cinquenta dias! Que saudades senti!
— Minha querida Edite, também pensei em ti a cada instante. Cumpri minha missão. Assim que capturei o Leão Dourado, pus-me a caminho sem descanso. E nosso pai?
— Está no Salão Dourado, conversando com o emissário do Santo Oriente. Venha, eu o levo.
Yego ordenou que os soldados aguardassem fora, e seguiu com Edite ao salão, onde um batedor já anunciara sua chegada.
Enquanto caminhavam, Yego narrou a caçada, arrancando suspiros de admiração da irmã.
Entraram no Salão Dourado. Edite correu até o rei, abraçando-o.
— Pai, meu irmão capturou o Leão Dourado!
O rei Oliver, em manto real escarlate, coroa de ouro cravejada de pedras, botas douradas e cinturão de jade, sentava-se no trono, taça de âmbar em punho, rosto sorridente, barba branca, feições bondosas. Tocou o véu da filha, sorrindo:
— És mesmo um pássaro de boas novas!
Yego saudou o rei e o enviado Jia. Este, baixo e atarracado, rosto cheio de carne, bigodes longos caindo sobre os lábios oleosos, barriga redonda envolta em túnica multicolorida, parecia gestante de seis ou sete meses. Uma mão segurava uma perna de cordeiro, a outra abraçava uma jovem frágil, em postura grosseira.
— Excelente! Parabéns! Que o embaixador Jia informe ao príncipe Weimiao de vosso reino: Yego trará ricos presentes e escoltará o Leão Dourado para o aniversário do rei — declarou Oliver, satisfeito.
— Perfeito! Já me cansei de esperar cinquenta dias. Com o Leão Dourado capturado, retorno imediatamente para levar as boas novas — respondeu Jia, radiante, apertando a jovem em seus braços e retirando-se a passos largos.
Oliver e Yego, fitando o enviado que partia, não conseguiram esconder a alegria.