Capítulo 309: Abater o Espírito Ressentido (continuação)
Os olhos de Ouyang Ke brilharam de súbito, o espírito abalado; deixou de prestar atenção a Tuolei, sorrindo suavemente:
— Eu, jovem mestre Ouyang, sou homem de palavra; proferida uma promessa, como poderia eu jamais retroceder? Contudo, ele pode partir, mas a senhorita Hua Zheng... tu deves ficar.
— Está bem.
Cheng Lingsu já previa que ele não a deixaria partir tão facilmente; mas assim era melhor, pois sozinha ainda poderia lidar com Ouyang Ke, tentando encontrar uma oportunidade de escapar. Se Tuolei permanecesse, teria receios em seu coração. Por isso, sem deixá-lo prosseguir com mais insinuações, anuiu prontamente, interrompendo-o.
Ouyang Ke não esperava que ela concordasse tão depressa; soltou uma gargalhada:
— Assim é que está certo! Sem este estorvo, podemos conversar à vontade.
Cheng Lingsu não lhe deu atenção; virou-se de costas, retirou do peito um lenço envolto em flores azuis, agitou-o levemente no ar e atou-o ao ferimento na mão de Tuolei. Depois, recolocou as duas flores no seio. Em poucas palavras, explicou a situação a Tuolei, instruindo-o a regressar imediatamente.
O semblante de Tuolei tornou-se sombrio; recuou dois passos, arrancou de súbito a adaga cravada junto aos pés, olhou fixamente para Ouyang Ke, e, erguendo o braço, desferiu um golpe vigoroso no vazio diante de si:
— Tua habilidade é superior; não sou teu adversário. Mas hoje, em nome do filho de Temujin, juro perante o deus das estepes: quando eliminar todos os traidores que atentaram contra meu pai, hei de desafiar-te, para vingar minha irmã! Então verás o que é um verdadeiro herói das pradarias!
Sendo ambos filhos de chefes mongóis, Tuolei era afável e leal, bem diverso da arrogância cega de Doshu. No entanto, a altivez em seu íntimo não era de modo algum inferior. Era o filho predileto de Temujin, conhecia bem as ambições e o espírito do pai; desejava ajudá-lo a transformar todo território sob o céu azul em pastagens dos mongóis.
Por este ideal, desde tenra idade se exercitava entre os soldados, jamais negligenciando um só dia. Quem diria, após tantos anos de prática, não só caíra nas mãos do inimigo, como hoje não conseguia sequer salvar a irmã que viera socorrê-lo! Sabia Tuolei que Cheng Lingsu tinha razão: era preciso priorizar a segurança de Temujin, regressar logo para reunir tropas e socorrer o pai emboscado. Todavia, pensar na irmã sendo retida à força fazia-lhe o peito arder de humilhação, quase sufocando-lhe o alento.
Os mongóis prezam acima de tudo a palavra dada, sobretudo quando o juramento é feito aos deuses da estepe, em quem todos confiam. Tuolei sabia que não era páreo para Ouyang Ke, mas ainda assim fez o voto com firmeza; seu semblante era solene e sincero, suas palavras transbordavam coragem. Apesar de não ser mestre nas artes marciais, os anos de experiência militar conferiam-lhe um porte régio, idêntico ao de Temujin: altivo, dominador, a majestade transluzindo dos ombros. Mesmo Ouyang Ke, sem entender o conteúdo exato, sentiu-se secretamente impressionado.
O coração de Cheng Lingsu se aqueceu; o sangue, herança de filha de Temujin, parecia vibrar, sentindo a indignação e a resolução de Tuolei, subindo como torrente, umedecendo-lhe os olhos de emoção. Disfarçando, colocou-se entre Ouyang Ke e a direção provável de ataque, e murmurou:
— Vai, depressa; volta para casa. Eu saberei me desvencilhar.
Tuolei assentiu, deu mais dois passos, abriu os braços e a apertou num abraço. Sem lançar sequer um olhar para Ouyang Ke, voltou-se e correu em direção à saída do acampamento.
No caminho, encontrando alguns soldados de guarda que tentaram detê-lo, abateu-os fria e resolutamente, um a um, com sua lâmina.
Apenas quando viu, com os próprios olhos, Tuolei montar um cavalo na orla do acampamento e partir ao longe, Cheng Lingsu enfim sossegou, soltando um leve suspiro.
Na vida anterior, seu mestre, o Rei das Drogas Venenosas, servia-se do veneno como remédio, curando e salvando, mas cria profundamente em retribuição cármica. Por isso, nos últimos anos, converteu-se ao budismo, cultivando o espírito, até alcançar uma serenidade imperturbável. Cheng Lingsu foi sua última discípula, muito marcada por seus ensinamentos. Nesta roda do destino, mesmo tendo morrido na vida anterior, fora trazida a este mundo; não podia deixar de crer que talvez houvesse outros desígnios ocultos.
Não desejava envolver-se demasiadamente com as pessoas e os acontecimentos deste mundo; pensava, até, em encontrar ocasião para fugir para longe, retornar às margens do lago Dongting, ver como estaria o Templo do Cavalo Branco, séculos depois. Abrir novamente uma pequena clínica, tratar dos enfermos, conservar no coração a saudade e o afeto por aquela pessoa do passado, e assim atravessar a vida.
Além disso, se Temujin viesse a sofrer algum infortúnio, a tribo mongol que a acolhera por dez anos partilharia seu destino. Sua mãe e irmãos, que a criaram e cuidaram com carinho, e todos os membros da tribo, que via diariamente, também padeceriam. Como poderia, após dez anos de convivência, cruzar os braços?
Pensando nisso, Cheng Lingsu suspirou mais uma vez.
Notando que Cheng Lingsu permanecia absorta, olhando na direção por onde Tuolei partira, suspirando sem cessar, Ouyang Ke ergueu o queixo, e zombou:
— O quê? Custa-te tanto deixá-lo partir?
Percebendo a insinuação, Cheng Lingsu franziu o cenho, voltando a si, e respondeu de pronto:
— Preocupo-me com meu irmão; acaso não é natural?
— Oh? Ele é teu irmão? — Ouyang Ke arqueou uma sobrancelha, um lampejo de alegria cruzando-lhe o olhar. — Então… aquele rapaz de antes é o teu amado?
— Que disparate é esse… — Cheng Lingsu conteve-se de súbito, compreendendo — Falas de Guo Jing? Já sabias… desde que chegamos?
— Não vocês, mas tu. Assim que vieste, soube. — Ouyang Ke exultava, satisfeito com a reação dela.
Cheng Lingsu descera do cavalo à distância, mas Ouyang Ke, dotado de profunda energia interna, tinha audição muito superior à dos soldados mongóis comuns. Praticamente no instante em que ela penetrara no acampamento, ele a percebeu; preparava-se para aparecer, quando viu Ma Yu intervir e levar ambos, ela e Guo Jing, para longe.
Outrora, seu tio Ouyang Feng sofrera um grande revés nas mãos da seita Quanzhen; por isso, os discípulos do Veneno do Oeste nutriam desconfiança e ressentimento pelos monges taoistas. Ouyang Ke reconheceu a túnica de Ma Yu, e recordando os conselhos do tio, decidiu não se mostrar. Preferiu ocultar-se nas sombras, observando os idos e vindos daqueles três.
Imaginava que Cheng Lingsu persuadiria Ma Yu a invadir o acampamento para resgatar os prisioneiros; ignorava que Ma Yu era mestre da seita Quanzhen, e supunha que, entre as miríades de soldados e os especialistas que acompanhavam Wanyan Honglie, Ma Yu certamente seria detido. Quem sabe ainda pudesse, aproveitando a ocasião, eliminar um mestre da seita rival. Surpreendeu-se, contudo, ao vê-lo partir com Guo Jing, deixando Cheng Lingsu sozinha.
Aos poucos, Cheng Lingsu organizava suas ideias:
— Wanyan Honglie veio secretamente para cá, certamente para instigar conflitos entre Sangkun e meu pai, fazendo com que as tribos mongóis se destruam entre si; assim, o Império Jin ficaria livre de ameaças ao norte.
Ouyang Ke não se interessava por tais intrigas, mas vendo Cheng Lingsu falar com tanta lucidez, assentiu e elogiou:
— Que perspicácia! Realmente admirável.
Passando os dedos pelos cabelos desfeitos pelo vento, Cheng Lingsu fitou-o com olhar límpido como as águas do Onon nas estepes:
— Tu serves a Wanyan Honglie, mas deixaste Guo Jing regressar para avisar, e agora libertas Tuolei para reunir tropas. Não temes frustrar os planos de teu amo?
Ouyang Ke riu alto; com um gesto ágil, tocou de leve o queixo dela:
— Temor? Que me importa o plano dele? Se puder conquistar um sorriso de uma bela dama, de que valem tais desígnios?
Cheng Lingsu, porém, não sorriu; ao contrário, franziu levemente as sobrancelhas, recuando um passo para evitar o leque que ele insinuava sob seu queixo. De mão firme, estendeu o braço e, com um "pá", agarrou a extremidade negra do leque. Sentiu um frio glacial atravessar a pele até os ossos, quase levando-a a largar o objeto. Só então percebeu que as hastes do leque eram de ferro negro, geladas como o gelo.
— Que foi? Gostaste do leque? — Ouyang Ke, displicente, sacudiu o pulso, desviando-lhe a mão e recolhendo o leque. Abriu-o num gesto rápido, agitando-o languidamente diante do peito. — Se quiseres outro, posso oferecer-te; mas este leque… — Hesitou um instante, e então sorriu de novo. — Se realmente o desejares, basta nunca mais te afastares de mim; assim, poderás vê-lo quanto quiseres…
Nota da autora: Ora, caro Ouyang Ke, a jovem Lingsu só quer o teu leque, custa-lhe tanto ceder? Quanta mesquinharia~
Ouyang Ke: Mas foi meu pai… cof, cof… meu tio quem mo deu…