Capítulo Quatro: Este mundo me parece estranhamente familiar...

Xia Ni Chu Bai 3447字 2026-03-14 14:30:34

— Jovem, você está bem?

Uma voz idosa e rouca despertou Pan Long. Ao abrir os olhos, deparou-se com uma anciã de feições benevolentes, que o observava com notória preocupação.

Contudo, o que primeiro lhe saltou aos olhos foi a indumentária da mulher.

O traje dela em nada se assemelhava ao estilo das terras do Norte: um vestido longo aos quadrados, em tons de vermelho e negro, adornado de babados nas mangas e na barra, um xale também guarnecido de rendas, um corpete apertado do peito à cintura e, por fim, um chapéu redondo, macio e fofo a lhe cobrir a cabeça... Tudo isso, aliado aos cabelos dourados e olhos azulados, fez Pan Long suspeitar, por um momento, de ter atravessado novamente o véu do tempo e se visto transportado à velha Europa de sua existência anterior, participando de alguma festividade camponesa.

E, como que por ironia do destino, ele de fato ouvia sons que evocavam uma celebração.

“Louvada seja a piedosa Deusa da Lua, louvada por nos proteger com ventos brandos e chuvas suaves, por nos conceder felicidade e paz...”— um homem de meia-idade entoava cânticos em alto e bom som.

E entre cada verso, adultos e crianças, em coro afinado, respondiam: “Louvemos, louvemos!”. O canto era de tal modo harmonioso que transparecia o hábito do ensaio regular, e não o improviso típico de ocasiões apressadas.

(O que está acontecendo?)

Pan Long sentou-se, apoiando a fronte com a mão, e só então, após breve reflexão, conseguiu organizar os pensamentos emaranhados.

(Ah, eu ativei o Fragmento do Shanhaijing, e fui sugado para dentro de... seria este um mundo ilusório criado pelo Fragmento? Mas é tudo tão real, não há nada de onírico nisso!)

Olhou ao redor: cada folha, cada brisa, cada matiz do ambiente era palpável, sem indício algum de simulacro.

(O que meu pai e meu avô diziam, não deixava de ser verdade. Converter o irreal em real, criar universos ilusórios... Quando se está imerso, é impossível distinguir o falso do verdadeiro, o onírico do concreto!)

(Comparados a este mundo, todos aqueles jogos de realidade virtual que joguei em minha vida passada parecem caricaturas toscas, indignas de crédito!)

Agora estava certo: fora absorvido por um mundo ilusório forjado pelo Fragmento do Shanhaijing. Quanto ao motivo pelo qual, ao ativá-lo pela primeira vez, não surgira o típico espaço etéreo para treino, mas sim um universo pleno de experiências e desafios—bem, talvez porque seu pai já tivesse infundido o artefato com energia espiritual.

Resolvido esse ponto, outro logo se impôs.

Que mundo seria este?

A dúvida lhe pesava.

O Fragmento do Shanhaijing não cria universos do nada; depende sempre das concepções do seu portador. Se o mestre imagina rios e montanhas, ele as forja; se pensa numa cidade, a cidade ganha forma; se concebe um tesouro, ali estará o tesouro... Tudo é reflexo da imaginação do possuidor.

Então, quem teria sonhado este mundo?

A primeira pessoa que lhe veio à mente foi seu pai, Pan Lei.

Por décadas, o Fragmento esteve sob os cuidados do pai, até pouco mais de dez dias atrás. Talvez ele já tivesse arquitetado um universo inteiro, pronto para ser vivenciado assim que o dono o ativasse.

Era a hipótese mais razoável.

Mas, ao examinar o entorno, Pan Long achou improvável.

O pai sempre dissera que o mundo mais valioso era aquele recoberto por pradarias de flores raras ou, idealmente, vastas hortas de ervas espirituais, onde se poderia alimentar e fortalecer o corpo diretamente, explorando uma “falha do sistema” para obter benefícios em profusão. Embora a energia espiritual fosse limitada e não permitisse a criação de plantas muito elevadas, a abundância compensava a falta de qualidade, e consumir ginseng, lingzhi, fu ling, he shou wu ou huang jing como pão cotidiano robustecia o vigor e favorecia o cultivo.

Foi assim, aliás, que o pai lograra atingir o patamar do Xiantian em poucos anos—à base de tais iguarias.

E nunca se tem demais dessas plantas; na família Pan, são mais de cem praticantes de artes marciais, e a demanda por ervas é insaciável.

No entanto, ao inspecionar o vilarejo, tudo o que via eram casas simples, sem vestígio de um único broto medicinal, em absoluto desacordo com a filosofia do pai.

Nitidamente, não fora o pai quem idealizara aquele mundo.

Seria então obra do avô? Ele também portara o Fragmento por várias décadas—ainda mais tempo que o pai. Morando há anos no coração da China, aprendera coisas enigmáticas, talvez até capazes de tal façanha.

...Mas tampouco parecia provável. O estilo destoava.

Pelas feições das pessoas, notava-se que o criador não era alguém das Terras do Norte—gente que preza corpos robustos, sejam homens ou mulheres. Seu ideal é domar lobos a pé, caçar gansos a cavalo; sonham com punhos onde se assentam homens e braços largos como trilhas para cavalos. A elegância refinada, o semblante sereno e delicado, são alvos de escárnio, tachados de “descendentes de coelhos”.

Pois bem, neste vilarejo todos ali, de todas as idades e ambos os sexos, encaixavam-se no tipo “coelho” segundo o jargão nortenho.

Não fosse sua memória de duas vidas e a experiência vasta muito além do comum, Pan Long talvez também julgasse que ali só havia coelhos.

E, quanto às vestes, eram de um estilo europeu jamais visto entre os povos do Norte—aliás, Pan Long nunca vira trajes semelhantes em pintura ou livro algum deste mundo.

Mesmo tendo morado no coração da China e aprendido muito, no âmago o avô continuava nortenho, com gostos e hábitos imutáveis.

Logo, este mundo tampouco era obra do avô.

Se não era de nenhum dos dois, de quem seria o sonho que o gerou?

Seria dele próprio?

Pan Long perscrutou o vilarejo, buscando na memória algum indício.

Tratava-se de uma aldeia pequena, talvez quarenta ou cinquenta casas cercadas por uma paliçada de madeira—indicativo de um local seguro, onde o pior perigo seriam lobos errantes.

Os moradores, todos trajando roupas semelhantes à da anciã, exibiam uma clara estética europeia. A maioria era loira e de olhos azuis; não avistou sequer um de cabelos negros.

Mais curioso: entre as trinta ou quarenta faces que divisou, não havia um só feio—ao menos, todos tinham fisionomias equilibradas. Muitos eram francamente belos; a própria anciã, apesar das têmporas já prateadas, trazia nos traços e no olhar a marca de uma beleza notável na juventude.

Ela não era exceção—entre os que Pan Long viu, outros três ou quatro ostentavam igual formosura.

Isso quase bastava para concluir: este mundo fora engendrado por sua própria imaginação.

Um grande homem já dissera: “A chamada criação desenfreada... nada mais é que acrescentar um olho a um corpo humano, alongar-lhe o pescoço uns palmos.” A imaginação nunca transcende a experiência; não há exceções.

É como nos contos: os eruditos escrevem sobre eruditos, os guerreiros sobre guerreiros. Mesmo que as tramas não coincidam com suas vidas, os detalhes refletem o que lhes é familiar.

Este vilarejo, desconhecido para Pan Long, não lhe evocava lembrança alguma. Mas os rostos dos homens e mulheres, e suas roupas, correspondiam ao seu ideal de beleza e só ele, dentre todos, poderia reconhecê-las—logo, este mundo provinha de suas próprias memórias.

Assim, necessariamente, o mundo em que agora se encontrava guardava relação com elementos de suas experiências de duas vidas.

— Jovem, você está bem?

Só então Pan Long percebeu que a anciã continuava a fitá-lo, ainda inquieta. Ele se apressou a sorrir, tranquilizando-a. A mulher, aliviada, voltou-se e caminhou em direção ao local onde se reuniam os outros.

O olhar de Pan Long também se voltou naturalmente para lá: era uma pequena praça, onde se juntavam umas duzentas ou trezentas pessoas, com mais aldeões acorrendo ao local.

Homens e mulheres, velhos e jovens, vestidos de modo simples, mas exibindo todos expressões de alegria: celebravam claramente algum festival.

O que mais lhe chamou a atenção, todavia, foram os traços daquelas pessoas—havia algo... estranhamente familiar.

(Por que os contornos de seus rostos e corpos me parecem tão familiares? Onde já vi esse tipo... de “estilo”?)

Meditou, mas não conseguiu recordar de onde conhecia fisionomias assim.

Era um cenário que lembrava as festividades europeias—mas em sua vida passada jamais pusera os pés na Europa!

Balançou a cabeça, intrigado, e prosseguiu refletindo.

O que mais o incomodava era, de fato, a aparência dos habitantes.

Todos eram belos. Entre duzentos ou trezentos, não havia um só feio, e beldades eram comuns.

Mais ainda: havia uma semelhança entre eles—não que fossem idênticos, mas partilhavam um “estilo”, uma essência escondida nos traços e silhuetas, algo que só se pode chamar de “traço artístico”, fortemente marcante.

Era uma semelhança de quem pertence à mesma família, mas ao mesmo tempo diferente... como uma série de quadros pintados por um mesmo artista, sob uma linha estética comum... E esse estilo, Pan Long sabia já ter visto em algum lugar—talvez até muito bem...

Foi então que notou, nos fundos da praça, uma estátua e a figura que se postava diante dela.

Era uma deusa, esculpida em pedra, abraçando um disco lunar, cercada de flores vivas. Ao centro do peito da estátua, uma gema translúcida cintilava sob o sol.

E a jovem menina que estava diante da estátua, de costas para ela, possuía tal semelhança em feições e porte, que parecia ter saído do próprio mármore, como se a estátua tivesse tomado vida.

Seus olhos brilharam de repente.

(Agora eu me lembro!)

Como um raio a rasgar as trevas da mente, de súbito recordou-se de onde conhecia aquele mundo.

Era o primeiro cenário do jogo de VR que jogara em sua vida passada, “Crônica dos Heróis: Espada e Elegia”—a vila de Luna!