Capítulo Dois: Quem diria que em minha família havia tal tesouro!

Xia Ni Chu Bai 3759字 2026-03-12 14:30:40

A equipe de caçadores de monstros avançava célere, dois homens para cada montaria. O sol mal se pusera, e já haviam alcançado as cercanias da vila. Fileiras de tochas serpenteavam pela noite como dragões de fogo, iluminando os despojos que carregavam nas grandes carroças — peles, ossos e carnes de feras demoníacas, um dos mais preciosos produtos do Norte.

A caçada anual aos monstros, realizada a cada outono, era indubitavelmente um dos eventos mais importantes dessas terras áridas. O resultado daquele ano — se seria próspero ou de penúria — dependia quase inteiramente dessa empreitada.

A terra do Norte é pobre e o clima, rigorosamente frio; a colheita dos campos mal basta para saciar a fome. O inverno, por sua vez, exige imensas reservas de lenha e alimentos. Assim, a cada final de outono, antes que a neve caia, caravanas vindas das terras centrais trazem consigo vastas quantidades de grãos, trocando-os por materiais de monstros, tão valiosos quanto raros no coração do império. Uma única pele ou alguns ossos bastam para trocar por alimento suficiente para sustentar um homem adulto durante um mês. Para o povo do Norte, trata-se de questão de vida ou morte durante o inverno.

Por isso, os homens robustos dessas terras partem a cada outono, arriscando a própria vida em combates mortais contra as criaturas demoníacas, trazendo de volta seus despojos para garantir o pão de cada dia.

Evidentemente, é uma tarefa perigosa — se menos de um quinto da equipe perecer, considera-se um bom resultado. Ano após ano, incontáveis filhos do Norte tingem a terra de sangue, tornando-se alimento para as próprias bestas que caçam.

Para eles, porém, trata-se de um equilíbrio justo. O inverno é cruel para todos os seres desta terra; todos precisam acumular provisões — homens e monstros igualmente.

A caçada não é senão uma disputa pelos recursos necessários à sobrevivência. Se eu vencer, tua pele e carne me pertencem; se tu triunfas, meu sangue será teu. É simples justiça.

Por isso, também, é do Norte que surgem os soldados mais ferozes de toda a Nove Províncias. Pois aqui, arriscar a vida em troca de riqueza, honra e posição sempre foi visto como algo natural, quase inevitável.

Se triunfam, são heróis. Se fracassam, que importa? Afinal, todos devem morrer um dia; que diferença faz se cedo ou tarde?

Nessa terra impiedosa, a vida não é bem tão preciosa.

Mas Pan Long jamais pensou assim.

Para ele, a vida era sagrada, digna de respeito em cada instante. Mesmo ao morrer, deveria ao menos ser por algo que valha a pena; não se atrevia a dizer que deveria pesar tanto quanto o Monte Taishan, mas ao menos não devia ser leve como uma pluma ao vento.

E, claro, o ideal seria que ninguém morresse, que todos pudessem viver em paz e segurança, partilhando dias serenos.

Se tal coisa fosse impossível, então ao menos ele priorizaria a vida dos seus — de si mesmo, dos familiares, dos amigos.

Entre gritos jubilosos dos bem-sucedidos e prantos de dor pelos que se foram, os Pan retornaram ao lar. Pan Lei ordenou ao intendente que conduzisse os demais para tratar dos despojos da caçada, retendo apenas o filho ao seu lado.

— Imagino que devas ter perguntas a me fazer, não? — disse ele, sorrindo.

Pan Long confirmou com veemência, expondo as dúvidas que o atormentavam havia dias.

Ouvido o filho, Pan Lei sorriu ainda mais satisfeito:

— Excelente! Muito bem! Fico muito contente que tenhas pensado em tantas coisas. E mais satisfeito ainda porque não te precipitaste em conjecturas, preferindo aguardar meu retorno para perguntar.

E, arqueando as sobrancelhas com certo mistério, completou:

— Pois bem, tente adivinhar: por que motivo eu quis ocultar o fato de estar ferido?

Pan Long respondeu sem hesitar:

— Imagino que, em sua última saída, tenha duelado com alguém. Mas, como o adversário não o identificou, o senhor quis esconder o ferimento para dificultar investigações.

Franziu levemente o cenho e prosseguiu:

— Mas confesso, me intriga. Em nossa arte, a habilidade marcial é o verdadeiro distintivo de um homem, mais que sua aparência ou porte. Sua técnica de Palma de Ferro é famosa em todo o norte; quem já a enfrentou poderia facilmente deduzir sua identidade. Ocultar o ferimento, nesse caso... não parece suficiente.

Pan Lei soltou uma gargalhada.

— E quem te disse que teu velho pai só sabe lutar de frente, com Palma de Ferro?

Pan Long arregalou os olhos, atônito diante do pai.

Viu, então, Pan Lei passar a mão esquerda pela cintura, e no instante seguinte, um lampejo cortou o ar: uma adaga dançava veloz entre seus dedos, descrevendo sete ou oito estocadas — ao menos esse era o número que Pan Long conseguiu acompanhar com seu olhar; provavelmente, havia mais.

— Isto... isto... — balbuciou ele, baixando a voz, espantado. — Pai, o senhor também domina o manejo da espada?

— Hehe, e não é apenas “dominar”! — respondeu Pan Lei, orgulhoso. — Na verdade, minha maior especialidade não é a Palma de Ferro, mas sim a Espada Rápida da Mão Esquerda!

— Estes anos todos, em Dingfeng, só revelei a Palma de Ferro. Quando saía incógnito, usava apenas minha espada da mão esquerda. Talvez já tenhas ouvido falar de outra identidade minha — Jin Biao, a Espada de Ouro da Mão Esquerda: esse sou eu.

Pan Long já não sabia o que dizer.

Ora, isso parecia coisa de romance de wuxia! Mesmo nos livros, raramente se vê alguém que, publicamente, é um mestre do combate duro e, secretamente, um espadachim solitário de fama lendária!

E mais: só com um olhar, percebera que a esgrima do pai era ágil e cortante, oposta à habitual força massiva que exibia. Por lógica, o pai deveria também dominar alguma técnica corporal leve e sutil, condizente com a identidade de Jin Biao.

No entanto, em todos esses anos, jamais o vira praticar um só dia de espada — muito menos exercícios de agilidade!

Técnica marcial requer prática incessante, ou logo se degenera. De onde vinha o tempo para cultivar duas artes tão distintas, e ambas em grau tão elevado?

Seria seu pai um gênio oculto das artes marciais, capaz de atingir fama só com talento natural, sem grande treino?

Afinal, Jin Biao era famoso em todo o Norte — ainda mais que a identidade verdadeira de seu pai!

— Pai, de onde tirou tempo para treinar com a espada? — não se conteve.

Pan Lei riu alto. Sob o olhar atônito e admirado do filho, tirou do peito um rolo de bambu e o entregou a Pan Long:

— O segredo de minha técnica está aqui. A partir de hoje, pertence-te.

— O que é isto? — Pan Long recebeu o bambu com estranheza; ao toque, era áspero, nada parecido com um tesouro.

— Um fragmento do Clássico das Montanhas e Mares, capaz de abrir um mundo próprio, onde realidade e ilusão se transformam — respondeu Pan Lei, num tom calmo, mas repleto de orgulho, dizendo algo que quase fez o filho perder os sentidos. — É o tesouro supremo de nossa linhagem, passado de geração em geração.

— Neste artefato, podes criar um pequeno mundo independente, próprio para treinar. Não importa quanto tempo passes lá dentro, do lado de fora terá transcorrido apenas um instante — e não envelhecerás por isso. — Pan Lei fez-se de desinteressado. — Além disso, ao matares criaturas de qi espiritual, podes absorver essa energia e armazená-la. Quando acumulada em quantidade suficiente, podes temporariamente transformar teus sonhos em realidade, criando um mundo com montanhas, águas e seres vivos. Embora esse mundo só exista por um tempo, se encontrares algo precioso lá e o trouxeres de volta, será real.

— O quê?! — Pan Long exclamou, incrédulo.

Criar um mundo de fantasia e trazer objetos preciosos de lá para o mundo real... Se imaginasse o universo de "Jornada ao Oeste" e trouxesse um pêssego da imortalidade roubado por Sun Wukong, não alcançaria assim a vida eterna? Era espantoso demais!

— Naturalmente, há limites para esse tesouro. Quanto mais poderoso o objeto, mais difícil de criar. — Pan Lei sorriu, explicando. — Um ancestral nosso tentou criar a lendária Erva da Imortalidade. Foram vinte anos de qi espiritual acumulado, e mesmo assim, no mundo criado, a erva permanecia ilusória, sem fôlego material. Creio que tais maravilhas exigem uma quantidade de qi absolutamente inacessível aos mortais.

Pan Long, aliviado, achou a explicação razoável, embora também lamentasse — por que razão um tesouro da família deveria submeter-se à razão? Quanto mais inverossímil, melhor!

— Para mundos comuns, o gasto é pequeno. — Pan Lei prosseguiu. — Durante esses anos, combati incontáveis vezes nesses mundos criados, e minha técnica de espada foi ali forjada. A maior vantagem é que ali não se morre de verdade: se fores morto, apenas serás expulso do mundo temporariamente, perdendo tudo o que levaste, nada além disso. Perdas insignificantes ante a experiência de combate adquirida.

Pan Long assentiu. Experiência de vida e morte em combate era de valor inestimável; obtê-la a troco de meros objetos era, de fato, um excelente negócio.

— Foi treinando assim que pude, sozinho, dominar o Norte com minha espada — disse Pan Lei, ostentando um brilho de orgulho. — Na última viagem, cruzei armas com as mulheres do Palácio Ziyun. Sozinho, matei cinco das seis “Fadas de Ziyun”. Elas não eram más, mas em experiência de vida ou morte, não se comparam! Eis a vantagem da vivência!

Mesmo já tendo se surpreendido várias vezes, Pan Long não pôde deixar de se espantar ainda mais.

O Palácio Ziyun era uma seita célebre, com sede no sul, mas uma filial no Norte. Era dominada por chamas femininas, cujos estilos de espada eram insidiosos, palmas venenosas e caráteres frios, frequentemente atacando ao menor pretexto. As “Seis Fadas de Ziyun” lideravam a filial nortenha, seis mestras de renome, todas com cultivo avançado, há mais de vinte anos invictas no Norte.

Durante esses anos, haviam exterminado várias famílias ilustres — Pan Long mesmo sabia de vários clãs inteiros destruídos por elas.

Não era de se estranhar que seu pai quisesse ocultar os próprios ferimentos — ele matara as mestras do Palácio Ziyun!

— Espere! Pai, enfrentou seis delas sozinho e matou cinco?! — perguntou, incrédulo.

— Inicialmente éramos quatro contra seis, mas elas nos armaram uma emboscada; de uma vez, mataram três dos nossos. — Pan Lei respondeu com indiferença. — Melhor assim, pois deixei de precisar disfarçar meu poder. Contudo, o Palácio Ziyun é formidável: ainda conseguiram escapar com uma delas. Como não eliminei todas, Jin Biao teve que “morrer” também. Uma lástima.

Falava com tamanha leveza que Pan Long ficou sem palavras.

Na dra de ser atacado de surpresa, sozinho, enfrentou seis mestras lendárias, matou cinco, e lamenta não ter matado a última... Céus, desde quando seu pai se tornara tão invencível?

Seria ele o protagonista de uma novela de wuxia?

— Basta, o passado não precisa mais ser mencionado. — Pan Lei enfim falou com real displicência. — Este tesouro, agora, será teu. Nos próximos dias, injeta teu qi nele, purificando-o e tornando-te seu dono. Quando teu avô vier, praticaremos juntos, para te acostumares ao uso.

Apertou o ombro do filho:

— A-Long, teu velho pai já chegou ao seu limite. O futuro da nossa família Pan estará, cedo ou tarde, em tuas mãos!

Pan Long apenas assentiu, sem saber o que responder, enquanto uma névoa de lágrimas lhe turvava o olhar.