Por pouco não caí de joelhos.
“Olá, meu nome é Mark Smith, sou amigo de Qu Jing...” O nome Mark Smith soava, para Mu Qing, vagamente semelhante aos nomes ocidentais que conhecia.
Mark observou o semblante confuso de Mu Qing e recordou-se das palavras de Qu Jing: aquela jovem perdera a memória após ser atacada por dinossauros. Lançou um olhar ao corpo ensanguentado de Mu Qing, admirando-se com o milagre de ela ainda estar viva.
“Qu Jing é o nome daquele que falava contigo há pouco. Desde criança, ele nutre um grande carinho por ti...” Que amigo inconveniente, pensou Mark, revelando sem rodeios aquilo que o outro jamais ousara confessar.
“Ele pediu-me que te levasse de volta para casa!” Enquanto conversavam, Mu Qing sentiu subitamente uma pressão poderosa brotar-lhe do âmago. Instintivamente ergueu os olhos e viu uma comitiva descendo da muralha.
À frente vinha exatamente aquele cuja voz clamara pela abertura dos portões e salvara-lhe a vida. Agora, distribuía ordens aos seus subordinados. Mu Qing reconheceu-lhe a voz. No momento do resgate, não tivera tempo de contemplar o rosto do benfeitor; agora, podia enfim observá-lo com atenção.
Contudo, ao fitá-lo, Mu Qing sentiu um súbito impulso de curvar-se em reverência, sem compreender o motivo de tal reação em seu próprio corpo.
O homem não aparentava muita idade — talvez nem trinta anos. Duas sobrancelhas arqueadas se projetavam até as têmporas, olhos longos, e um olhar negro como a noite. Não era o mais alto dentre os guerreiros, mas havia nele uma aura de imponência, como se fosse natural que todos o olhassem de baixo para cima.
Naquele exato instante, não se sabia se por acaso ou intenção, ele lançou um olhar na direção deles. Quando seus olhos pousaram sobre Mu Qing, ela percebeu, para seu espanto, uma centelha de surpresa — embora o rosto permanecesse impassível, a contração das pupilas denunciava tal emoção, que logo desapareceu.
Em seguida, ele virou-se e continuou a dar ordens, as mãos cruzadas atrás das costas, exibindo numa simples volta de corpo a majestade de um soberano.
Seria aquela aura que lhe despertava o desejo de fazer-lhe uma reverência? Mu Qing não pôde evitar tal pensamento. Aquele homem era diferente de todos que conhecera: trazia consigo o magnetismo de um monarca diante do mundo, capaz de submeter qualquer um sem surpresa.
Logo, contudo, descartou tal ideia: sentia que não era sua própria vontade, mas sim do corpo que habitava — era como se este ansiava prostrar-se diante daquele homem.
Suas pernas começaram a se dobrar, mas então, ouviu o grito agudo do Sistema Wang Jian Número Dois junto ao ouvido: “O que você está fazendo?”
A voz a despertou, e ela conteve o gesto antes que alguém notasse.
Wang Jian Número Dois era apenas um sistema; caso Wang Jian estivesse ali, certamente reconheceria aquele homem e se admiraria: como poderia ele existir neste futuro?
O homem parecia ocupado; seu olhar durou apenas um instante antes de se afastar, partindo com seus acompanhantes.
“Quem é aquele homem?”, perguntou Mu Qing, percebendo as vantagens de se fingir de amnésica.
“Ele é o rei deste lugar”, respondeu Mark, estampando no rosto uma expressão de admiração. “Três anos atrás, os dinossauros tomaram a Terra praticamente da noite para o dia. A humanidade foi quase exterminada. Ele, sozinho, ergueu a Grande Muralha e reuniu os poucos sobreviventes, treinou guerreiros, defendeu-nos dos ataques dos dinossauros. Se não fosse por ele, o mundo de hoje seria apenas uma nova era jurássica, sem traço de humanidade.”
Ao ouvir Mark, Mu Qing não resistiu e voltou a fitar o rei. Por alguma razão, uma sensação inominável a invadia — como se reencontrasse um velho conhecido, há muitos anos desaparecido.
Vendo o silêncio da jovem, Mark continuou: “Levarei você para casa. No caminho, contarei tudo o que sei sobre a sua história. O tio Hua e a tia não estão bem de saúde; melhor que não saibam nada sobre sua amnésia.”
Mu Qing assentiu e, caminhando ao lado dele, passou a observar ao redor. Não longe das muralhas, erguiam-se casas — presumivelmente dormitórios dos guerreiros. Mais adiante, avistava-se uma vila, com muitas habitações e campos cultivados ao redor; o cultivo ia bem, logo seria tempo de colheita.
No percurso, Mark lhe contou tudo o que sabia. O nome original da jovem era Hua Yan; seu pai, Hua Hu; a mãe, acamada desde o início do apocalipse, após um susto que a deixou enferma, vivendo há anos restrita ao leito.
Hua Yan fugira de casa porque ouvira dizer que, não longe dali, no Monte Tai, habitava um deus das montanhas, e que no jardim desse deus havia uma erva capaz de curar sua mãe.
Mu Qing não compreendia tal crença — em pleno ano de 9012, ainda havia quem acreditasse em deuses das montanhas? De súbito, sentiu que aquele mundo era mesmo caótico.
Na vila havia um mercado. Por recomendação de Qu Jing, Mark comprou roupas novas para Mu Qing e arranjou-lhe um lugar para lavar o rosto antes de acompanhá-la até em casa.
A família de Hua Yan residia na extremidade leste da vila, numa casa com um pequeno pátio. Mu Qing, ao olhar em volta, sentiu-se imersa em uma atmosfera de paz.
Aquele rei, pensou, deveria ser alguém de capacidades extraordinárias.
Quando chegaram à porta, uma mulher de meia-idade estava de pé diante do portão de madeira, olhando fixamente para fora, como quem espera alguém.
Assim que avistou os dois, correu ao seu encontro, radiante de alegria.
“Esta é sua mãe”, sussurrou Mark, “a saúde dela é frágil.”
Mu Qing compreendeu de imediato como deveria agir.
De fato, a senhora Hua mostrava-se debilitada; ao aproximar-se, já ofegava.
“Xiao Yan, onde você esteve ontem à noite? Como pode passar a noite fora de casa? Você sabe quanto seu pai e eu ficamos preocupados?”
“Desculpe, mamãe. Prometo que nunca mais vou preocupá-los assim. O dia já está escurecendo, deixe-me ajudá-la a entrar.” Dizendo isso, Mu Qing segurou-lhe o braço com docilidade.
“Tia, não se preocupe. Ela passou a noite com Qu Jing”, acrescentou Mark, com um pretexto pronto, dissipando todo o receio da mãe, que lançou a Mu Qing um olhar compreensivo, como se tudo soubesse.
Em seguida, Mark disse: “Já a trouxe de volta, não se preocupe, ela está bem. Preciso ir descansar, peço licença.” Mesmo com o convite insistente para que ficasse para o jantar, Mark recusou.
Sorriu: “O banquete dos nossos guerreiros à noite é sempre farto.”
A senhora Hua sorriu também; as refeições dos guardiões da cidade sempre foram generosas — era política do rei nunca privar os defensores do povo.
Assim, não insistiu para que Mark ficasse, e só então permitiu que Mu Qing a ajudasse a entrar.
Aquele era um lugar reconstruído após o cataclismo. Não havia tempo nem recursos para erigir tecnologias avançadas; a vida seguia à moda antiga, ainda que os edifícios fossem de concreto e aço.
Após o jantar, quando a noite caiu, todos se recolheram. Os equipamentos de eletricidade haviam sido destruídos; à noite, não havia luz.
Talvez por nunca ter tido pais, Mu Qing apreciava profundamente aquela ternura familiar e empenhava-se em ser uma boa filha. Por sorte, sua personalidade era semelhante à de Hua Yan; logo se integrou à família, sem que o casal percebesse que já não era mais a mesma filha.
Naquela noite, o pai voltou para casa trazendo um frango assado. Durante o jantar, a mãe retirou os dois coxas e colocou-as todas na tigela de Mu Qing, enquanto ela e o marido se contentavam com os ossos, já quase sem carne.
Roíam-nos até que restasse apenas o osso limpo — ficava claro que comer frango ali não era algo corriqueiro. Ainda assim, reservaram à filha as melhores partes.
Deitada à noite, Mu Qing refletia sobre o dia e a noite tumultuados que vivera desde sua chegada. A doença da senhora Hua era grave; mesmo adormecida, era possível ouvir-lhe a tosse persistente.