Abriram as portas para permitir a entrada da protagonista.
— Por quê?! — A voz de Mu Qing transbordava de desespero.
Ela acreditara que, uma vez chegando diante do portão da cidade, aqueles lá dentro certamente a salvariam, abririam-lhe passagem; mas, após esperar tanto tempo, tudo o que recebeu foi uma recusa: não podiam abrir o portão. Isso quase fez sua mente ruir.
— Por que não me deixam entrar? O portão pode ser trancado antes que o tiranossauro consiga entrar! — Mu Qing não pôde conter-se e gritou para as pessoas acima dela.
Percebeu, então, que todos a olhavam, porém os semblantes eram frios, indiferentes — tudo o que desejavam era que o dinossauro não invadisse a cidade.
— Desculpe-nos, não podemos abrir o portão agora. Se o fizermos, o dinossauro entrará junto, e apenas um deles já seria um desastre para nós — explicou um homem que aparentava ser o líder.
— Esperamos que compreenda...
Mu Qing já não queria mais ouvir aquelas palavras vindas do alto. Esperavam que ela aceitasse morrer por eles? Como podiam proferir tais palavras?
Enquanto falavam, o tempo se esvaía — e já era tarde demais.
O tiranossauro estava logo atrás de Mu Qing; o hálito quente que exalava fazia cada pêlo do seu corpo se eriçar de pavor.
Ela colou-se ao portão, observando, impotente, a aproximação lenta e ameaçadora da besta.
— Abram o portão! — No auge do desespero, Mu Qing ouviu uma nova voz soar sobre o muro.
— Mas... — O guarda esboçou objeção, mas foi silenciado por um olhar severo.
— Não me obrigue a repetir! — A voz ressoou com uma autoridade inquestionável.
— Sim, senhor!
Logo após a resposta, Mu Qing ouviu o portão se abrir lentamente atrás de si.
O tiranossauro pareceu compreender a situação, assumiu postura de ataque e saltou, como se temesse que sua presa escapasse, ou então, aproveitando a oportunidade, desejasse arrombar o portão.
Mu Qing estava bem posicionada, exatamente entre as duas folhas do portão; bastava uma fresta para que ela se esgueirasse.
E foi isso que aconteceu: uma estreita abertura surgiu e, sem hesitar, Mu Qing deslizou para dentro.
Como a brecha era pequena, o portão se fechou rapidamente assim que ela entrou.
No instante em que a porta se fechou, um estrondo ressoou do lado de fora — algo havia colidido com violência contra o portão.
Do lado de dentro, Mu Qing e os demais nada podiam ver, mas lá do alto, os homens sobre o muro testemunharam claramente a cena: o dinossauro batera de frente no portão, desmaiando no impacto.
O homem que ordenara a abertura permanecia junto à borda da muralha, observando tudo com um rosto impenetrável, as sobrancelhas cerradas numa expressão indecifrável. Contudo, ao ver o tiranossauro tombar, permitiu-se um sorriso efêmero.
— Que criatura estúpida! — murmurou.
Mas o sorriso foi breve; logo seus olhos voltaram-se para o trecho da muralha danificado pela fúria da besta. Em alguns pontos, os estragos eram profundos. Os artesãos tentavam aproveitar aquele intervalo, enquanto o ataque abrandava ao meio-dia, para restaurar as defesas, mas o dano era maior que antes — não se sabia por quanto tempo a muralha resistiria.
Naquele momento, a troca de turno ocorria sob a relativa calmaria daquele horário.
Mu Qing, já dentro das muralhas, olhava ao redor, perdida. Não sabia para onde ir, pois não possuía nenhuma lembrança da anfitriã daquele corpo.
Enquanto hesitava, um dos soldados que trocavam de turno a avistou e o rosto dele iluminou-se de alegria.
— Xiao Yan! Você é mesmo você? — Mu Qing ergueu os olhos e viu um homem de sobrancelhas grossas e olhos vivos, olhando para ela, emocionado.
Ele parecia ser o capitão do grupo, pois suas roupas, embora predominantemente negras como as dos demais — camisa preta, calças justas pretas, um emblema de ave bordado ao peito —, distinguiam-se por uma faixa roxa no ombro. Soldados comuns não possuíam tal detalhe; apenas a partir do líder surgia essa faixa, que ia da gola ao topo da manga.
Antes que Mu Qing pudesse reagir, o homem se aproximou e a envolveu num abraço apertado, exclamando, emocionado:
— Xiao Yan, é você! Você está viva!
Quem era aquele homem? Instintivamente, Mu Qing quis afastá-lo.
Mas, de repente, ouviu a voz de Wang Jian Número Dois sussurrar-lhe ao ouvido:
— Não se mexa! Este homem conhece a anfitriã, e provavelmente lhes é muito próximo. Seja discreta, ou perceberão que não és a verdadeira e te queimarão como a uma aberração.
Assustada, Mu Qing conteve-se, embora detestasse ser abraçada por um estranho, e seu rosto ganhou um toque de impaciência.
Como ela nada disse, o outro continuou a falar:
— Xiao Yan, por que foi tão imprudente? Desde que sumiu, seus pais estão consumidos de preocupação; não pregaram os olhos durante toda a noite...
Xiao Yan — seria esse o nome da anfitriã?
— Eu... Eu tenho pais? — murmurou Mu Qing, surpresa com a revelação.
Mal terminou de falar, Wang Jian Número Dois gritou-lhe aos ouvidos:
— Estás falando demais!
Como era de se esperar, o homem a soltou e a examinou com atenção.
Naquela altura, Mu Qing estava irreconhecível: o rosto e o corpo cobertos por sangue seco, as roupas rotas — sinais evidentes de que sua jornada do lado de fora fora uma verdadeira provação.
Ao vê-la naquele estado, o homem, mesmo sendo de compleição robusta, irrompeu em prantos.
— Xiao Yan, me perdoe! É tudo culpa minha, não consegui protegê-la! — E a envolveu novamente em seus braços, chorando convulsivamente.
Mu Qing já se sentia incomodada. Quem era ele, afinal? Por que insistia em abraçá-la? Não suportava mais aquele contato, e, ignorando os murmúrios de Wang Jian Número Dois, empurrou-o bruscamente.
— Eu não estou ferida! — disse, ríspida, mas conteve o restante das palavras ao perceber que dependia dele para obter informações sobre a anfitriã.
Passando a mão pela nuca, disse em tom mais brando:
— Me desculpe. Fui atacada por um dinossauro lá fora e acabei machucando a cabeça. Quando acordei, minha mente estava vazia... esqueci até quem eu era.
Sua voz foi se tornando cada vez mais baixa; de cabeça baixa, lançava olhares furtivos ao homem, tentando adivinhar se ele desconfiava de algo.
O homem, apreensivo, parecia ansioso para tocá-la outra vez, mas conteve-se.
A troca de turno terminara; ele olhou ao redor, ciente de que não podia conversar ali — a disciplina era rígida.
Chamado pelos companheiros, só teve tempo de dizer algumas palavras:
— Xiao Yan, espere aqui. Vou pedir a alguém para acompanhá-la até em casa. Preciso assumir o posto.
E correu, afastando-se.
Mu Qing permaneceu à margem, observando a troca de turno. Os soldados eram disciplinados, eficientes — quem os treinara devia ser alguém de notável competência.
Os que terminavam o turno costumavam descansar nos alojamentos, embora pudessem circular livremente.
Mu Qing aguardou apenas alguns instantes junto ao muro, até que avistou um homem de cabelos dourados e olhos azuis dirigindo-se a ela. Foi então que notou: naquela guarnição, cada soldado tinha uma cor de pele diferente.