O Lamento Doloroso do Amor
As montanhas azuis erguem-se majestosas, serpenteando por milhares de léguas; nas profundezas destas montanhas repousa a antiga cidade de Xuanjiang.
É o início do inverno, e a velha cidade, já se mostrando um tanto desolada, é assolada pelo vento frio e cortante. Uma lufada gélida passa, e algumas folhas de bordo, de um vermelho vivo, desprendem-se do alto, rodopiando ao sabor do vento sobre as lajes secas e esbranquiçadas, acentuando ainda mais a sensação de melancolia. Os raios do sol de inverno, pálidos e tímidos, descem do céu, trazendo um tênue sopro de calor para este dia frio.
Nas ruas, poucos transeuntes se veem; apenas no canto da via ouve-se, ao longe, algum latido disperso de cão, logo devolvendo a rua ao silêncio.
Na esquina da rua, há um beco sem saída. Tijolos azulados e telhas negras, a arquitetura imponente e arcaica, ainda que marcada pelo tempo. As beiradas dos telhados protegem contra o vento uivante; atrás de um muro baixo, um rapaz e uma moça encontram-se próximos, em conversa. Suas vozes, embora não tão baixas, parecem perder força diante do vento cortante.
O rapaz aparenta não mais de dezesseis anos. Usa uma túnica azul simples, corpo levemente magro que, ao sabor do vento, revela certa fragilidade. O rosto ainda guarda vestígios de juventude, mas os olhos, negros e brilhantes, parecem carregar uma centelha de vivacidade e a marca precoce da experiência. Quanto à jovem, seu corpo esguio e postura delicada destacam-se sob o vestido branco, que ressalta suas curvas graciosas e pureza imaculada; assemelha-se a uma flor de lótus de neve nas montanhas celestes: sorriso encantador, olhar luminoso, cabelos flutuando ao vento. Embora também tenha cerca de dezesseis anos, cada gesto e sorriso exalam um fascínio inato e envolvente.
O rapaz chama-se Mu Tianhe, dezesseis anos, filho adotivo do velho Gao, ferreiro da loja Gao, na antiga cidade de Xuanjiang, dono de fama de prodígio desde pequeno. A jovem, chamada Xu Luo, também de dezesseis anos, é a amiga de infância e namorada de Mu Tianhe.
— Tian, nós... — Xu Luo parece um pouco constrangida, baixa a cabeça e diz, em voz baixa: — Vamos terminar.
— O quê? — O semblante de Mu Tianhe se contorce, o sorriso some-lhe do rosto como se nunca ali tivesse estado. O olhar se transforma, uma dor lampeja em suas pupilas negras antes de se dissipar, restando apenas uma calma imperturbável enquanto encara Xu Luo. — Por quê?
Diante da serenidade de Mu Tianhe, Xu Luo sente-se ainda mais culpada. Se ele gritasse, a insultasse ou até mesmo a agredisse, talvez ela se sentisse melhor... Porém, se Mu Tianhe fosse esse tipo de rapaz, ela algum dia teria se apaixonado por ele?
Xu Luo abaixa ainda mais a cabeça, quase afundando o queixo no peito, e murmura: — Me desculpe.
— Hehe... — Mu Tianhe esboça um sorriso amargo. Olha para a jovem ereta à sua frente, que outrora se aninhava em seus braços, e percebe como aquele rosto familiar tornou-se agora tão distante...
— Pode me dizer... por quê? — Mu Tianhe pergunta suavemente.
— Eu... — Xu Luo ergue o olhar, nele um traço de arrependimento, mas a expressão decidida. — Tian, teu dantian está bloqueado, não podes abri-lo nem reunir energia de combate; jamais te tornarás um guerreiro de prestígio. Agora, serei aluna da Academia dos Guerreiros das Três Margens; de hoje em diante, pertencemos a mundos diferentes, por isso...
— Entendo. Compreendi. — O olhar de Mu Tianhe torna-se sombrio; ele acena levemente com a cabeça. — Desejo-te que logo possas abrir teu dantian e te tornar uma alma de batalha.
Por mais que tentasse disfarçar, por que seu coração ainda doía tanto? Mu Tianhe lutava para conter as lágrimas; sob as mangas azuis, os dedos já se cravavam na carne, o sangue escorrendo e manchando o tecido.
Xu Luo, mordendo o lábio, vê a manga ensanguentada de Mu Tianhe, mas permanece imóvel, sem sequer cogitar socorrê-lo.
De súbito, surge uma jovem, aparentando dezoito anos, na flor da juventude, delicada como um salgueiro ao vento, bela de modo singelo, ainda que trajando apenas roupas rústicas. Aproxima-se apressada de Mu Tianhe, tira um lenço de seda branco e começa a enfaixar-lhe o ferimento, o olhar transbordando preocupação e ternura.
— A-Tian, estás bem?
A jovem chama-se Xiao Yu; assim como Mu Tianhe, é órfã, acolhida desde a infância pelo velho ferreiro Gao, com quem vivem como família.
Após um momento, Xiao Yu ergue o rosto e encara Xu Luo com frieza, as sobrancelhas franzidas:
— Xu Luo, como podes tratar Tian assim? Não sabes o quanto ele te ama?
Por alguma razão, ao ver Xiao Yu cuidar de Mu Tianhe com tamanha delicadeza, Xu Luo sente um incômodo profundo. Ela sorri com desprezo:
— Xiao Yu, minhas escolhas não te dizem respeito!
E, com um riso frio, prossegue:
— Ele não passa de um inútil. Além de prometer-me um amor vazio, o que mais poderia me dar?
— Tu... — Xiao Yu estreita as sobrancelhas, indignada, mas, ao lançar um olhar cauteloso para Mu Tianhe e ver que ele permanece impassível, acalma-se um pouco.
— No início, com dezesseis anos já era um guerreiro de sexto nível. Pensei tratar-se de um gênio, capaz de abrir o dantian e tornar-se uma alma de batalha; por isso fiquei com ele. Mas quem poderia imaginar que era apenas um inútil de dantian bloqueado! — Xu Luo, que começara com um sorriso frio, agora se descontrola, quase gritando: — Sou mulher, quero me casar com um forte, quero estar acima dos outros, não quero viver uma vida miserável, lutando por migalhas... Os manuais de combate que desejo, ele pode me dar? As técnicas de batalha que quero, ele é capaz de prover? Não! Além de prometer amor vazio e gestos românticos insignificantes, que mais pode me oferecer?
Palavras cruéis, afiadas como lâminas, dilaceram o coração de Mu Tianhe. Seu rosto empalidece, e ele sorri, desolado.
Sim, ele não passa de um inútil de dantian bloqueado, incapaz de cultivar energia de combate ou técnicas de batalha, nunca será um grande guerreiro. O que poderia oferecer além de promessas de amor ilusório? Neste mundo onde apenas os fortes são respeitados, um amor perfeito só existe nas lendas; a realidade é outra, sempre foi.
— Xu Luo, você... — O rosto de Xiao Yu endurece, tomada de raiva. — Não pense que...
— O quê? Vai me bater? — Xu Luo avança, encarando Xiao Yu, cheia de escárnio. — Xiao Yu, se tens coragem, mata-me! E quem és tu? Nasceste para dar azar; talvez o bloqueio do dantian de Mu Tianhe seja culpa tua...
“Pá!”
Um estalo agudo, como um trovão, silencia Xu Luo e Xiao Yu. Ambas, atônitas, voltam-se para Mu Tianhe.
Por um tempo, Xu Luo permanece com a mão no rosto avermelhado, olhando incrédula para Mu Tianhe.
— Você... você me bateu?
Mu Tianhe, sereno, responde:
— Este tapa, dei por Yu-jie. Diga o que quiseres de mim, não importa; mas exijo respeito à minha família!
— Mu Tianhe, vais te arrepender! — chorando, Xu Luo cobre o rosto e foge.
Quando Xu Luo desaparece na esquina, Mu Tianhe sente-se exaurido, encosta-se à parede.
— A-Tian, estás bem? — pergunta Xiao Yu, amparando-o com delicadeza.
— Estou sim. — Mu Tianhe faz um gesto, forçando um sorriso. — Yu-jie, volta para casa, quero ficar sozinho.
— Está bem. Mas volta logo, sim? — Xiao Yu hesita, querendo dizer algo, mas se contém; lança-lhe um último olhar silencioso, então parte.
Após sua partida, Mu Tianhe não consegue mais segurar-se: lágrimas quentes correm-lhe pelo rosto.
Homem de verdade, lágrimas de mil caminhos.
ps: Enfim, um novo livro começa. Talvez “Guerra Celeste” tenha deixado muitos arrependimentos: um final apressado, falhas graves, muita coisa inacabada; mas... o fim significa também um novo começo. Após um mês de descanso e preparação, finalmente inicio esta nova obra. Ainda sentem falta de “Guerra Celeste”? Venham conhecer “O Deus da Batalha Suprema”! Aqui, encontrarão lutas apaixonantes, sentimentos intensos e delicados... Se gostarem, votem, recomendem, deem seu apoio. O sucesso do livro determinará até onde ele poderá chegar... Com toda sinceridade, espero que “O Deus da Batalha Suprema” alcance a perfeição. Agradeço de coração!
Aos leitores:
Novo livro lançado, peço que todos ajudem a favoritar...