1 Pousada Tongfu
Era uma rua de pedra azul, permeada de uma atmosfera antiga e nobre, ladeada por construções de madeira, reminiscências da arquitetura de épocas passadas. A rua pulsava com vida e prosperidade; uma profusão de lojas alinhava-se ao longo dos caminhos: casas de tecidos, armazéns de grãos, salões de chá, joalherias, lojas de cosméticos e de pós. Os transeuntes trajavam hanfu, vestes tradicionais, com os cabelos presos em elaborados coques; suas falas carregavam um tom arcaico, evocando diálogos de dramas históricos. Jiang Yi, com uma mochila preta às costas, contemplava os “antigos” que iam e vinham, o rosto marcado pela incredulidade, o coração tomado por um assombro profundo: “É isto... o passado?” “Será que realmente... viajei no tempo?” Minutos antes, era apenas um estudante universitário comum, preparando-se para aproveitar o feriado de Ano Novo para viajar. Mal havia colocado a mochila e saído do dormitório, quando tudo escureceu diante de seus olhos. Ao recobrar a visão, encontrou-se num lugar completamente estranho. “O penteado dos passantes... não são rabos de rato, então não é a dinastia Qing. Qual será?” Jiang Yi observava ao redor, conjecturando mentalmente. Nesse instante, os habitantes da rua mantinham distância, reunidos e lançando olhares estranhos, murmurando entre si sobre ele. Sua roupa moderna era demasiado chamativa para aquele tempo. Vestindo um sobretudo negro ajustado, calças sociais bem cortadas, e carregando uma mochila de viagem, sua aparência “exótica” destacava-se como um vaga-lume na noite, impossível de passar despercebido. Percebendo o desconforto, Jiang Yi abaixou a cabeça e apressou o passo, fugindo dos olhares curiosos. “O mais urgente agora é descobrir em que época me encontro, que lugar é este, e pensar em como me integrar. E ainda, como explicar minha origem...” Enquanto caminhava, adentrando um beco solitário, elaborava seus próximos passos. Ao atravessar o beco e alcançar a saída para outra rua, ouviu o diálogo entre um homem e uma mulher. Escondido, espreitou, na esperança de colher alguma informação útil. O homem, aparentando cerca de trinta anos, mantinha as mãos dentro das mangas, com um ar de malandro; declarou, triunfante: “Agora te informo oficialmente: não vou devolver o dinheiro que te devo.” “Por que não vai pagar?” A mulher, surpresa pela insolência, protestou com indignação. “Eu até gostaria de pagar, mas temo que os Gêmeos Terríveis não permitam.” “O que quer dizer com isso?” Ela indagou, sem compreender. “Em plena luz do dia, ele ousa desafiar-nos.” O homem elevou o tom, com sarcasmo: “Se os Gêmeos Terríveis ouvirem isso, você estará... ga~” Ao falar, simulou com as mãos no pescoço um gesto de execução. A mulher, alarmada, percebeu que suas palavras haviam se tornado uma arma contra si mesma. Apressou-se em sorrir: “Hou San, você é terrível, sempre fui boa com você.” … “Hou San, Gêmeos Terríveis... Esta cena me soa familiar.” Jiang Yi franziu o cenho, vasculhando a memória, mas não encontrou resposta imediata. Após o término do diálogo, quando Hou San se afastou, Jiang Yi saiu do beco e aproximou-se da mulher. Ela, frustrada pela ameaça e pela dívida não recuperada, nem percebeu sua presença. Jiang Yi notou que atrás dela havia uma antiga estalagem, onde alguns empregados se ocupavam. “Uma estalagem, afinal.” Erguendo o olhar, viu a placa dourada pendurada na entrada, ostentando quatro caracteres:
《Tongfu Estalagem》 Um raio pareceu atravessar-lhe a mente; Jiang Yi estremeceu. Então, soube finalmente onde estava. Wulin Waizhuan—um drama televisivo que, há anos, conquistara o país inteiro. No peito, tumultuava uma tempestade de pensamentos. Demorou para acalmar-se, pois precisava confirmar; talvez o nome da estalagem fosse apenas uma coincidência. Cruzando os braços diante da proprietária, perguntou cautelosamente: “Como devo chamar a estimada proprietária?” “Tong Xiangyu, pode me chamar de Senhora Tong.” Ela respondeu sorrindo, enquanto examinava Jiang Yi, intrigada com seu traje peculiar. Era realmente Wulin Waizhuan. “O sistema de viagem no tempo para dramas televisivos foi ativado, vinculando o hospedeiro: Jiang Yi.” Mundo atual: Wulin Waizhuan. Progresso do mundo: 0,1%. Quando o progresso atingir 100%, será possível viajar novamente. Uma voz gélida ecoou em sua mente, transmitindo-lhe informações. Como veterano leitor de romances online, Jiang Yi estava familiarizado com sistemas de viagem no tempo. O sistema em si não era nada de novo, apenas permitia atravessar dramas televisivos. O que não compreendia era: por que ele? E como a viagem acontecera sem qualquer sinal? Não fora atingido por meteorito, nem por raio, tampouco morrera; simplesmente, atravessara para outro mundo e ganhara um sistema—não era isto demasiado abrupto, demasiado casual? Talvez fosse punição por ter criticado, na véspera, num fórum, um autor que abandonara um romance sobre viagem no tempo... Não fazia sentido. A proprietária, vendo o “jovem estranho” parado e absorto, acenou diante de seus olhos: “Senhor, está bem? Por que ficou assim de repente?” Jiang Yi voltou a si, forçando um sorriso: “Nada, nada, apenas fiquei encantado com a beleza da senhora.” “Você é um lisonjeador nato.” Apesar do traje incomum de Jiang Yi, a Senhora Tong não se incomodou; imaginou que ele buscava hospedagem e chamou para dentro: “Zhan Tang, venha receber o hóspede.” “Já vou.” Bai Zhantang apareceu com uma toalha, surpreendendo-se com o visual de Jiang Yi, e elogiou: “Ora, senhor, seu estilo é bem singular.” “Sim, nada demais,” respondeu Jiang Yi, ajustando o casaco. Bai Zhantang, sem se importar, acomodou-o dentro e perguntou: “Senhor, deseja apenas comer ou vai hospedar-se?” Naturalmente, Jiang Yi queria ficar na Tongfu Estalagem; naquele mundo, não tinha onde se instalar. Mas, ao abrir a boca, lembrou-se de que não possuía nem um pouco de prata, e hesitou: “Bem, acabo de retornar do exterior, e não tenho prata comigo.” “Sem dinheiro? Não estará pensando em comer de graça, espero.” A expressão de Bai Zhantang endureceu imediatamente. O tom elevado atraiu a atenção da Senhora Tong, do Erudito, de Xiao Bei e dos demais, que se aproximaram com olhares desconfiados. Jiang Yi ergueu a mão, sinalizando para que se acalmassem: “Não se preocupem, vou ver se tenho algo de valor comigo.” E começou a vasculhar os bolsos.
Carteira, chaves, moedas, celular—Jiang Yi examinou os objetos sobre a mesa. O telefone, descartou de imediato: seria perigoso vendê-lo ali. O restante parecia de pouco valor; pensou no conteúdo da mochila: roupas de troca, um carregador portátil, garrafa, guarda-chuva, alguns lanches—nada que valesse dinheiro. Naquele mundo desconhecido, sem dinheiro, até sobreviver seria um desafio. Se não encontrasse solução, só restaria implorar para ser acolhido como ajudante, realizando tarefas diversas. Com a bondade da Senhora Tong, isso não seria problema. Mas... teria ele atravessado para ser mero serviçal numa estalagem? Jiang Yi não se resignava. Bai Zhantang, ao ver os objetos modernos de acabamento refinado, ficou fascinado; seus “dedos de ladrão” coçavam, admirando: “De fato, um hóspede estrangeiro; só trouxe coisas exóticas jamais vistas.” Tong Xiangyu pegou uma moeda reluzente, examinando-a atentamente, e disse: “Mas isto não é prata? Por que diz que não tem? Deve ser moeda estrangeira.” “Mas a cor está estranha, brilhante demais... não será aço?” Ela pesou a moeda, notando um peso diferente. Jiang Yi não imaginava que uma moeda de um yuan pudesse ter valor ali; animou-se e apressou-se a dizer: “É uma moeda estrangeira, contém prata e outros metais preciosos. Senhora, poderia avaliar?” Tong Xiangyu acariciou a moeda, hesitando sobre o preço. Vendo a indecisão, Jiang Yi aproveitou para enaltecer o produto: “Embora não possa ser usada como prata na Dinastia Ming, serve como obra de arte. Veja, o desenho da flor é belo e delicado.” “Senhora, imagine: atravessar o mar é perigoso; talvez em cem anos nenhum compatriota volte ao interior. Essas moedas são únicas, tesouros de valor inestimável.” Vendo a proprietária interessada, Jiang Yi intensificou a venda: “Adquirindo essas moedas, poderá contar aos amigos que possui uma raridade estrangeira. Não é motivo de orgulho?” De fato, a moeda de um yuan era composta de aço com revestimento de níquel, sem grande valor. Mas a gravura era sofisticada, fruto da arte moderna, inexistente no passado. Tong Xiangyu, convencida, assentiu: “Tem razão. Vejo que retornar do exterior não foi fácil. Aceito cada moeda por duas taéis de prata.” “Viajei milhas até a China, poderia considerar um valor melhor?” Após negociações ardilosas, Jiang Yi vendeu seis moedas por quinze taéis de prata. Não sabia se era muito ou pouco naquela época, mas ao menos poderia subsistir. Lembrava-se que o salário mensal dos empregados da estalagem era de apenas dois centavos. Quinze taéis de prata representavam seis anos de trabalho. “Pretendo viver algum tempo aqui em Qixia Town. O que é necessário para obter documentos oficiais? Poderia ajudar-me, Senhora Tong?” Resolvida a questão financeira, Jiang Yi abordou outro problema crucial: o registro civil. Mais uma vez, pediu auxílio à proprietária. “É simples, conheço bem o chefe de polícia Xíng. Basta falar com ele.” Jiang Yi agradeceu com um gesto: “Fico-lhe muito grato, Senhora Tong.”